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May 5, 2026
O Adamastor Furia não tem motor português

O supercarro português tem um motor oriundo da divisão Ford Performance. É menos português por isso ou será que podia ser de outra maneira?
O Adamastor Furia voltou a roubar as atenções esta semana. A sua aparição no Caramulo Motorfestival tomou de assalto as redes sociais. É sempre assim. Quando o Furia aparece há sempre curiosidade. Por isso, seria injusto dizer que foi apenas por causa da roda que saltou. Na verdade, antes disso acontecer, este vídeo já somava centenas de milhares de visualizações e era o mais visto nas redes sociais do evento.
Dito isto, sem dúvida que o Adamastor Furia sabe fazer-se notar. A expectativa é manifestamente elevada e o carinho e o apoio dos portugueses ao projeto também. Depois, mesmo entre os apoiantes do projeto, há alguns lamentos: como é que o Adamastor Furia pode ser um supercarro português se o motor não é português? As opiniões dividem-se e são todas legitimas. Vou dar-vos a minha.
Sem dúvida que o motor é um elemento central em qualquer carro, mas será que é isso que define a nacionalidade ou a pertença de um projeto a um determinado país? São tantos os exemplos de marcas que recorrem a motores de outras marcas. A Aston Martin com a Mercedes-AMG, a Audi com a Lamborghini, a Lotus com a Toyota, a UMM com a Peugeot… podem continuar, porque os exemplos sucedem-se.
É que se ter «motor português» fosse condição para o Adamastor Furia ser um «supercarro português» nem sequer estávamos a ter esta conversa. Simplesmente porque não existiria Adamastor. Desenvolver um motor é uma empreitada de tal ordem que tornaria impossível colocar de pé um projeto que mesmo sem este elemento já é díficil de levar a cabo. O último motor português foi este: um Casal monocilindro a dois tempos com 50 cm3.
Por isso, vamos lá colocar os pés bem assentes na terra. Se marcas com participação no Mundial de Fórmula 1 e décadas de história na indústria automóvel têm de recorrer a terceiros para fornecer motores aos seus carros de produção, o que esperar de uma marca portuguesa com uma dúzia de anos? A resposta está dada.
Da minha parte, a nacionalidade ou pureza do projeto não fica beliscada por ter um motor americano. Acho até alguma graça a isso. Olhem para nós. Somos o resultado de uma mescla de viagens, contactos e trocas culturais com o mundo todo. Como diz um amigo meu com muita graça “o português não é uma raça pura, é uma raça apurada”.
Também por isso, o nome Adamastor, que nos remete para a época dos descobrimentos, não podia ter sido melhor escolhido. Sei que os tempos são outros, mas cresci num tempo onde celebrávamos esses laços e, sobretudo, a partilha do mais belos dos laços entres os povos: a língua.
Ok, desculpem, já estou a divagar — mas raramente estes textos são apenas sobre carros. Por isso, voltando ao motor do Adamastor Furia, não é português, mas já tem sotaque português. Parece um daqueles americanos que vive no Algarve há vinte anos. Ganhou as nossas manias.
Os responsáveis da Adamastor gostam de desafios e é por isso que o motor 3.5 V6 biturbo da Ford Performance foi profundamente alterado. Gestão eletrónica, refrigeração, sistema de escape e admissão foi tudo feito pela Adamastor em parceria com empresas e engenheiros portugueses. De Matosinhos para o mundo. O resultado, para já, são 750 cv de potência, 1000 Nm de binário e um som de escape que nos dá vontade de cantar o hino.
Esta é, quanto a mim, a parte mais bonita da Adamastor e do projeto que Ricardo Quintas, fundador e CEO da marca portuguesa, está a tentar colocar de pé: trata-se de verdadeira engenharia portuguesa. Não mandou comprar, mandou fazer. Podia ter simplesmente ter comprado um motor, mas transformou-o; podia simplesmente ter comprado uma suspensão, mas desenvolveu e pantenteou um sistema completo; podia ter encomendado a terceiros uma monocoque em carbono, mas montou uma fábrica; podia ter feito outsourcing, mas contratou engenheiros portugueses.
Não sei qual será o desfecho do Adamastor Furia, mas há um punhado de gente, cheia de coragem e talento neste momento a tentar, contra todas as possibilidades. Haverá algo mais português que isto?
Claro que há… um pequeno atraso. Meu, neste caso. Meti-me a escrever esta crónica e tenho o vídeo do primeiro teste ao Adamastor Furia para acabar. Prometo que está quase. Fiquem atentos ao YouTube da Razão Automóvel.
Por Guilherme Costa / Razão Automóvel
Link Original: https://www.razaoautomovel.com/cronicas/adamastor-furia-nao-tem-motor-portugues/
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